Eu vou cantar pra saudade com seu vestido vermelho e a
sua boca
Eu vou cantar pra saudade descer na minha cabeça e
comandar sua festa, festa
Aquele cheiro som imagem do teu corpo incendeia
E um rio carregado de saudade vem correr na minha
veia
Na veia amor, na veia.
É como a luz da lua que atravessa a parede da cadeia
Clareia mais forte que o sol.
E Quando a saudade chegar com seu batalhão de
agitadores
E tanta bandeira
Vou cantar aquele som da gente
Vou rasgar o teu vestido novo
.
terça-feira, 26 de fevereiro de 2008
segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008
Os três mal amados
O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato. O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço. O amor comeu meus cartões de visita. O amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome.
O amor comeu minhas roupas, meus lenços, minhas camisas. O amor comeu metros e metros de gravatas. O amor comeu a medida de meus ternos, o número de meus sapatos, o tamanho de meus chapéus. O amor comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos.
O amor comeu meus remédios, minhas receitas médicas, minhas dietas. Comeu minhas aspirinas, minhas ondas-curtas, meus raios-X. Comeu meus testes mentais, meus exames de urina.
O amor comeu na estante todos os meus livros de poesia. Comeu em meus livros de prosa as citações em verso. Comeu no dicionário as palavras que poderiam se juntar em versos.
Faminto, o amor devorou os utensílios de meu uso: pente, navalha, escovas, tesouras de unhas, canivete. Faminto ainda, o amor devorou o uso de meus utensílios: meus banhos frios, a ópera cantada no banheiro, o aquecedor de água de fogo morto mas que parecia uma usina.
O amor comeu as frutas postas sobre a mesa. Bebeu a água dos copos e das quartinhas. Comeu o pão de propósito escondido. Bebeu as lágrimas dos olhos que, ninguém o sabia, estavam cheios de água.
O amor voltou para comer os papéis onde irrefletidamente eu tornara a escrever meu nome.
O amor roeu minha infância, de dedos sujos de tinta, cabelo caindo nos olhos, botinas nunca engraxadas. O amor roeu o menino esquivo, sempre nos cantos, e que riscava os livros, mordia o lápis, andava na rua chutando pedras. Roeu as conversas, junto à bomba de gasolina do largo, com os primos que tudo sabiam sobre passarinhos, sobre uma mulher, sobre marcas de automóvel.
O amor comeu meu Estado e minha cidade. Drenou a água morta dos mangues, aboliu a maré. Comeu os mangues crespos e de folhas duras, comeu o verde ácido das plantas de cana cobrindo os morros regulares, cortados pelas barreiras vermelhas, pelo trenzinho preto, pelas chaminés. Comeu o cheiro de cana cortada e o cheiro de maresia. Comeu até essas coisas de que eu desesperava por não saber falar delas em verso.
O amor comeu até os dias ainda não anunciados nas folhinhas. Comeu os minutos de adiantamento de meu relógio, os anos que as linhas de minha mão asseguravam. Comeu o futuro grande atleta, o futuro grande poeta. Comeu as futuras viagens em volta da terra, as futuras estantes em volta da sala.
O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e minha noite. Meu inverno e meu verão. Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte.
*João Cabral de Melo Neto
O amor comeu minhas roupas, meus lenços, minhas camisas. O amor comeu metros e metros de gravatas. O amor comeu a medida de meus ternos, o número de meus sapatos, o tamanho de meus chapéus. O amor comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos.
O amor comeu meus remédios, minhas receitas médicas, minhas dietas. Comeu minhas aspirinas, minhas ondas-curtas, meus raios-X. Comeu meus testes mentais, meus exames de urina.
O amor comeu na estante todos os meus livros de poesia. Comeu em meus livros de prosa as citações em verso. Comeu no dicionário as palavras que poderiam se juntar em versos.
Faminto, o amor devorou os utensílios de meu uso: pente, navalha, escovas, tesouras de unhas, canivete. Faminto ainda, o amor devorou o uso de meus utensílios: meus banhos frios, a ópera cantada no banheiro, o aquecedor de água de fogo morto mas que parecia uma usina.
O amor comeu as frutas postas sobre a mesa. Bebeu a água dos copos e das quartinhas. Comeu o pão de propósito escondido. Bebeu as lágrimas dos olhos que, ninguém o sabia, estavam cheios de água.
O amor voltou para comer os papéis onde irrefletidamente eu tornara a escrever meu nome.
O amor roeu minha infância, de dedos sujos de tinta, cabelo caindo nos olhos, botinas nunca engraxadas. O amor roeu o menino esquivo, sempre nos cantos, e que riscava os livros, mordia o lápis, andava na rua chutando pedras. Roeu as conversas, junto à bomba de gasolina do largo, com os primos que tudo sabiam sobre passarinhos, sobre uma mulher, sobre marcas de automóvel.
O amor comeu meu Estado e minha cidade. Drenou a água morta dos mangues, aboliu a maré. Comeu os mangues crespos e de folhas duras, comeu o verde ácido das plantas de cana cobrindo os morros regulares, cortados pelas barreiras vermelhas, pelo trenzinho preto, pelas chaminés. Comeu o cheiro de cana cortada e o cheiro de maresia. Comeu até essas coisas de que eu desesperava por não saber falar delas em verso.
O amor comeu até os dias ainda não anunciados nas folhinhas. Comeu os minutos de adiantamento de meu relógio, os anos que as linhas de minha mão asseguravam. Comeu o futuro grande atleta, o futuro grande poeta. Comeu as futuras viagens em volta da terra, as futuras estantes em volta da sala.
O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e minha noite. Meu inverno e meu verão. Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte.
*João Cabral de Melo Neto
sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008
Sentidos
SENTIDOS
Eu gosto de deitar no sofá e comer doce de banana de colher
Eu gosto do cheiro de café todo dia de manhã
Eu gosto de olhar as pessoas
Eu gosto do barulho do mar
Gosto de sentir arrepio ouvindo uma música
Gosto de cachaça de cerveja e de fumaça
Eu gosto de ir à praia e enfiar os pés na areia
Sou desse tipo de gente que anda meio perdida
Tentando achar algum caminho que valha a pena
Estou começando a gostar de não saber pra onde ir
Há pouco, não sei ao certo quanto tempo faz se é que isso teve algum começo,
Sinto um enorme prazer em sentir, apenas
Uma brisa, o cheiro do café, notas musicais, a presença de alguém
Afagos na barriga, cócegas em minha alma
Sentidos primitivos e infantis resgatados em meio à poeira dos anos
Sim, sou puro sentidos
Docemente embriagada pela presença de pessoas que exalam suas essências
Em sublimes trocas, almas que dão as mãos
Mordidas delirantes
Em um bolo de chocolate
Eis a vida
Eu gosto de deitar no sofá e comer doce de banana de colher
Eu gosto do cheiro de café todo dia de manhã
Eu gosto de olhar as pessoas
Eu gosto do barulho do mar
Gosto de sentir arrepio ouvindo uma música
Gosto de cachaça de cerveja e de fumaça
Eu gosto de ir à praia e enfiar os pés na areia
Sou desse tipo de gente que anda meio perdida
Tentando achar algum caminho que valha a pena
Estou começando a gostar de não saber pra onde ir
Há pouco, não sei ao certo quanto tempo faz se é que isso teve algum começo,
Sinto um enorme prazer em sentir, apenas
Uma brisa, o cheiro do café, notas musicais, a presença de alguém
Afagos na barriga, cócegas em minha alma
Sentidos primitivos e infantis resgatados em meio à poeira dos anos
Sim, sou puro sentidos
Docemente embriagada pela presença de pessoas que exalam suas essências
Em sublimes trocas, almas que dão as mãos
Mordidas delirantes
Em um bolo de chocolate
Eis a vida
quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008
Às vezes você me pergunta
Por que é que eu sou tão calado
Não falo de amor quase nada
Nem fico sorrindo ao teu lado
Você pensa em mim toda hora
Me come, me cospe, me deixa
Talvez você não entenda
Mas hoje eu vou lhe mostrar
Eu sou a luz das estrelas
Eu sou a cor do luar
Eu sou as coisas da vida
Eu sou o medo de amar
Eu sou o medo do fraco
A força da imaginação
O blefe do jogador
Eu sou, eu fui, eu vou
Gita gita gita gita gita
Eu sou o seu sacrifício
A placa de contra-mão
O sangue no olhar do vampiro
E as juras de maldição
Eu sou a vela que acende
Eu sou a luz que se apaga
Eu sou a beira do abismo
Eu sou o tudo e o nada
Por que você me pergunta
Perguntas não vão lhe mostrar
Que eu sou feito da terra
Do fogo, da água e do ar
Você me tem todo dia
Mas não sabe se é bom ou ruim
Mas saiba que eu estou em você
Mas você não está em mim
Das telhas eu sou o telhado
A pesca do pescador
A letra A tem meu nome
Dos sonhos eu sou o amor
Eu sou a dona de casa
Nos pegue-pagues do mundo
Eu sou a mão do carrasco
Sou raso, largo, profundo
Gita gita gita gita gita
Eu sou a mosca da sopa
E o dente do tubarão
Eu sou os olhos do cego
E a cegueira da visão
Mas eu sou o amargo da língua
A mãe, o pai e o avô
O filho que ainda não veio
O início, o fim e o meio
Eu sou o início, o fim e o meio
Por que é que eu sou tão calado
Não falo de amor quase nada
Nem fico sorrindo ao teu lado
Você pensa em mim toda hora
Me come, me cospe, me deixa
Talvez você não entenda
Mas hoje eu vou lhe mostrar
Eu sou a luz das estrelas
Eu sou a cor do luar
Eu sou as coisas da vida
Eu sou o medo de amar
Eu sou o medo do fraco
A força da imaginação
O blefe do jogador
Eu sou, eu fui, eu vou
Gita gita gita gita gita
Eu sou o seu sacrifício
A placa de contra-mão
O sangue no olhar do vampiro
E as juras de maldição
Eu sou a vela que acende
Eu sou a luz que se apaga
Eu sou a beira do abismo
Eu sou o tudo e o nada
Por que você me pergunta
Perguntas não vão lhe mostrar
Que eu sou feito da terra
Do fogo, da água e do ar
Você me tem todo dia
Mas não sabe se é bom ou ruim
Mas saiba que eu estou em você
Mas você não está em mim
Das telhas eu sou o telhado
A pesca do pescador
A letra A tem meu nome
Dos sonhos eu sou o amor
Eu sou a dona de casa
Nos pegue-pagues do mundo
Eu sou a mão do carrasco
Sou raso, largo, profundo
Gita gita gita gita gita
Eu sou a mosca da sopa
E o dente do tubarão
Eu sou os olhos do cego
E a cegueira da visão
Mas eu sou o amargo da língua
A mãe, o pai e o avô
O filho que ainda não veio
O início, o fim e o meio
Eu sou o início, o fim e o meio
Agora, estavam separados.
Triste.
A fantasia não passou a ser realidade.
Um dia, em um dos corações, houve a esperança de que houvesse algo concreto, um amor real, uma vida a dois.
Engano.
Sem culpa.
Apenas a realidade.
Um coração sente.
O outro também sente.
Sentimentos diferentes.
Impedimento de tornar uma fantasia realidade.
Quando os objetivos não se encontram não há futuro em comum.
Apenas amizade.
Distância.
E tempo.
Triste.
A fantasia não passou a ser realidade.
Um dia, em um dos corações, houve a esperança de que houvesse algo concreto, um amor real, uma vida a dois.
Engano.
Sem culpa.
Apenas a realidade.
Um coração sente.
O outro também sente.
Sentimentos diferentes.
Impedimento de tornar uma fantasia realidade.
Quando os objetivos não se encontram não há futuro em comum.
Apenas amizade.
Distância.
E tempo.
segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008
Quisera eu
Ser a primavera
A boa-nova
Os sabores da vida
Dentro da sua tigela colorida
De tons incomuns
E colorir um a um
Os seus momentos nus
Queria ser
Quem você quisesse ver
Te dar bom dia antes do sol
E sem tem acordar, mergulhar
Debaixo do seu lençol
Quisera eu, como eu queria
Saber que você me espera
Na próxima esquina
Pra irmos pra casa
Ser a primavera
A boa-nova
Os sabores da vida
Dentro da sua tigela colorida
De tons incomuns
E colorir um a um
Os seus momentos nus
Queria ser
Quem você quisesse ver
Te dar bom dia antes do sol
E sem tem acordar, mergulhar
Debaixo do seu lençol
Quisera eu, como eu queria
Saber que você me espera
Na próxima esquina
Pra irmos pra casa
sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008
Diante da minha "iris"
Quando o Sol
Abaixou
Num dia tão monótono,
A paixão
Me deixou
Atônito.
Me tirou
Da rotina,
E num momento único,
Alterou
Meu destino
De súbito.
Aí,
Saí do vale do meu tormento,
E fui
Cair no lago do teu amor;
Ali,
Aliviei todo o meu sofrimento,
E ui,
Me vi gemendo de prazer que nem de dor.
Enfim, lancei
De mim um grito;
E em ti, fui um
Com o infinito.
E no céu
Do meu eu,
No íntimo, no âmago,
Acendeu
Um límpido
Relâmpago.
No ápice,
Em átimos
Que pareceram séculos,
Eu me banhei
E me lavei
Em sexo e luz.
Então,
Além do monte, além do horizonte,
Oh sim,
Além do mundo, além da razão,
Oh não,
Bebi do poço sem fundo, da fonte
Sem fim,
O poço do desejo, a fonte da paixão.
Enfim, lancei
De mim um grito;
E em ti, fui um
Com o infinito.
Abaixou
Num dia tão monótono,
A paixão
Me deixou
Atônito.
Me tirou
Da rotina,
E num momento único,
Alterou
Meu destino
De súbito.
Aí,
Saí do vale do meu tormento,
E fui
Cair no lago do teu amor;
Ali,
Aliviei todo o meu sofrimento,
E ui,
Me vi gemendo de prazer que nem de dor.
Enfim, lancei
De mim um grito;
E em ti, fui um
Com o infinito.
E no céu
Do meu eu,
No íntimo, no âmago,
Acendeu
Um límpido
Relâmpago.
No ápice,
Em átimos
Que pareceram séculos,
Eu me banhei
E me lavei
Em sexo e luz.
Então,
Além do monte, além do horizonte,
Oh sim,
Além do mundo, além da razão,
Oh não,
Bebi do poço sem fundo, da fonte
Sem fim,
O poço do desejo, a fonte da paixão.
Enfim, lancei
De mim um grito;
E em ti, fui um
Com o infinito.
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