sábado, 24 de maio de 2008

Ela é flor. Flor sem nome. Sem nome é mais bonito. Narcisa não é. Quebra espelho, corta cabelo e vai sem convicção. Ela é rosa, é universal e não perde a graça. Vai sem graça, no compasso descompassado dessa dança da beleza. Sem saber ela das flores todas iguais, dessas artificiais. Que a gente compra por descuido. E acha cuidadoso jogar fora. Não se acha na exposição. Ficam todas à mercê dela. Ela à mercê do baile das que não são. Que menina, que graça. Não se reflete nos vidros que refletem cor de mentira. Nem na estrutura esbelta, retilínea. Ela é o juízo pelo avesso, a beleza genuína. Ela é existe e basta. Basta de dança. Sai do salão, sai. Vai pro jardim das belezas naturais, vai menina flor. "
A substância do som parece a mesma, mas não é, na medida em que foi assumida e trabalhada diversamente pela vontade de significar. A subjetividade do corpo que vive a significação é responsável pelo nexo entre som e sentido.
O que desnorteia os que buscam uma relação constante e congruente entre tal som e tal sentido é a maleabilidade infinita com que o homem trabalha a matéria fonética. E até do silêncio, que parece puro vazio, ausência de som, o espírito arranca um mar de significados.


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quarta-feira, 21 de maio de 2008

Ai se eu fosse...

Se eu fosse grande, eu pegava meus sonhos e enterrava num baú no fundo do quintal da minha mãe, e ia embora dessa cidade.
Se eu fosse grande eu tirava a venda dos meus olhos, costuradas com experiências maternas sem muito sucesso.
Se eu fosse grande, eu tomava todo aquele café, de uma só vez.
Se eu fosse grande, eu não me refugiaria nas cartas antigas que tu me enviara em tempos de outrora.
Se eu fosse grande, realmente grande, eu saberia que não desamarro minhas pernas porque sei que vou ter que correr... Correr muito e sozinha.

segunda-feira, 19 de maio de 2008



"Se eu fosse jovem, eu fugiria desta cidade
Enterraria meus sonhos no subsolo
Como eu, nós bebemos para morrer, nós bebemos essa noite

Longe de casa, elephant gun*
Vamos derrubá-los um a um
Nós os deitaremos, eles não foram encontrados, não estão por aqui

Que comecem as estações - elas rolam como devem
Que comecem as estações - derrube o grande rei

E rasgam o silêncio do nosso acampamento à noite
E rasgam a noite

E rasgam o silêncio do nosso acampamento à noite
E rasgam o silêncio, tudo que é deixado é o que eu escondo"


*Beirut

quarta-feira, 7 de maio de 2008



"Se um dia te afastares de mim, Vida — o que não creio.
Porque algumas intensidades têm a parecença da bebida —
Bebe por mim paixão e turbulência, caminha Onde houver uvas e papoulas negras (inventa-as) Recorda-me,
Vida: passeia meu casaco, deita-te.
Com aquele que sem mim há de sentir um prolongado vazio.
Empresta-lhe meu coturno e meu casaco rosso: compreenderá.
O porquê de buscar conhecimento na embriaguês da via manifesta.
Pervaga.
Deita-te comigo.
Apreende a experiência lésbica: O êxtase de te deitares contigo.
Beba.
Estilhaça a tua própria medida."


**(Trecho de, Hilda Hilst)
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Se estamos onde pensamos,
o que fazemos no corpo
tão lerdo e tão pesado?!

Que gravidade nos prende,
se somos feitos de vácuo?!

Se, pensando, somos corpo
aéreo e ilimitado,
por que este corpo de carne
segurando as nossas asas?!


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Antes do nome

"Não me importa a palavra, esta corriqueira.
Quero é o esplêndido caos de onde emerge a sintaxe,
os sítios escuros onde nasce o "de", o "aliás",
o "o", o "porém" e o "que", esta incompreensível
muleta que me apóia.
Quem entender a linguagem entende Deus
cujo Filho é Verbo. Morre quem entender.
A palavra é disfarce de uma coisa mais grave, surda-muda,
foi inventada para ser calada.
Em momentos de graça, infreqüentíssimos,
se poderá apanhá-la: um peixe vivo com a mão.
Puro susto e terror. "

[Adélia Prado]